O “caso” Mateus
A propósito do denominado “caso” Mateus imediatamente me vem ao pensamento uma frase a que recorro bastas vezes quando os meus interlocutores são agentes que têm a seu cargo a gestão, sejam eles treinadores ou dirigentes: falhar o planeamento é planear o falhanço. Infelizmente e contra todas as regras já não diria da gestão, mas do bom-senso o planeamento e a capacidade de antecipar o futuro parecem conceitos completamente desconhecidos para a grande maioria dos dirigentes do nosso futebol. Parece surreal como os principais responsáveis pela indústria do futebol se entretêm a “matar” alegremente a “galinha dos ovos de ouro” sem cuidarem de defender e proteger aquilo que deveria ser a sua primeira preocupação: a credibilidade! Assim quando deveríamos estar numa fase áurea do desporto-rei português com os nossos jogadores cada vez mais espalhados por clubes de todo o mundo, com cerca de 40 treinadores portugueses a trabalhar além-fronteiras (alguns deles campeões nos países onde estão), com a Selecção Nacional Vice-Campeã da Europa e quarta classificada no último Mundial na Alemanha, com 6 equipas nas competições da UEFA, sendo que pela primeira vez três delas na Liga dos Campeões aquilo a que se assiste diariamente em todos os meios de comunicação social é o desfilar de novos episódios do “caso” Mateus e novas escutas no âmbito do processo apito dourado cirurgicamente dadas a conhecer conforme os vários interesses que se digladiam. Os protagonistas de fantásticos feitos, como a vitória do Sporting Clube de Portugal sobre o Inter de Milão para a Liga dos Campeões são sistematicamente abafados pelas declarações e acções de pessoas que em vez de credibilizarem e engrandecerem o nosso futebol tudo fazem para o destruir. Não admira que umas das vertentes fundamentais para o sucesso dos espectáculos desportivos, os espectadores, vão em cada vez menor número aos estádios (veja-se a diminuição significativa do número de espectadores na última época da Liga portuguesa). É que a credibilidade demora muito a construir, mas destrói-se num ápice e os adeptos não são acéfalos. Se à falta de credibilidade somarmos o elevado preço dos bilhetes (noutro dia num dos programas desportivos transmitidos na televisão um espectador referia que pelo preço do bilhete ficou em casa, comeu lagosta e não se incomodou com ninguém) temos o caldo de cultura para o desastre da indústria futebolística nacional. Para além de tudo isto não é despiciendo que um destes dias devido ao verbo inflamado dos seus dirigentes alguns espectadores e adeptos menos informados e mais facilmente manipuláveis provoquem um desastre num qualquer estádio reagindo contra alguma atitude de um jogador da equipa adversária ou do árbitro. Faço votos para que a Associação Portuguesa de Adeptos continue o seu trabalho, para que estas situações não se verifiquem, para o qual a sua reivindicação de um estatuto de representação junto da Federação Portuguesa de Futebol e a criação da figura do Provedor do Adepto podem ser um contributo importante.
Assim neste contexto é de louvar quando um dirigente recentemente eleito, mas que ainda não tomou posse devido a mais uma trapalhada provocada por outro dirigente ávido de protagonismo recusa a verborreia fácil e decide ficar calado evitando assim uma escalada de declarações prejudiciais aos interesses dos clubes que o elegeram. Já adivinharam que me estou a referir a Hermínio Loureiro que estoicamente tem resistido a todas as atoardas que lhe vêm sendo dirigidas até por respeitáveis comentadores da nossa praça que falam sobre o que não sabem. Pode ser que este notável exemplo seja seguido por outros dirigentes e que assim este autêntico modelo frutifique e se generalize para que os verdadeiros protagonistas (atletas e treinadores) possam retomar o espaço que é deles por direito próprio a bem do nosso desporto!
Prof. Dr. Jorge Silvério
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