Uma lesão física implica sempre uma lesão mental
Quem lêr este título ficará provavelmente admirado com esta minha peremptória afirmação e a pensar: “então quando um atleta se lesiona isso não é exclusivamente um processo físico?”
De facto não é. Qualquer lesão física implica sempre uma lesão na mente. Basta pensar na transição que o atleta sofre imediatamente ao passar da actividade para um período de inactividade mais ou menos prolongado. Toda a reestruturação que isso implica, o pensar: “será que vou conseguir recuperar e voltar no pleno das minhas capacidades físicas?” “será que conseguirei recuperar o meu lugar?” todas estas interrogações e inquietações provocam aquilo que designo de “lesão” mental. Quando se estuda a reacção de um atleta a uma lesão conclui-se que ele passa por diversas fases: inicialmente nega a lesão, não acredita no que lhe aconteceu e tenta minorar o significado da lesão, bem como a sua gravidade. A essa fase segue-se a raiva: o atleta entende a realidade da lesão e tende a reagir com raiva sobretudo com aqueles que lhe são mais próximos, nomeadamente a família. A fase seguinte é a de tentar explicar o que lhe aconteceu sendo que nem sempre se consegue identificar o que originou a lesão. Quando um atleta se apercebe da realidade da lesão tem tendência a sentir-se deprimido devido à pausa forçada na carreira e às incertezas sobre o futuro. Quando consegue ultrapassar essa fase está pronto para se concentrar na reabilitação e em regressar à actividade iniciando-se a fase de aceitação. Tenho a certeza que quem me lê já percebeu que as lesões físicas implicam um trabalho planeado e cuidadoso não só a nível físico, mas também a nível mental. Se o atleta e todos aqueles que o rodeiam estiverem conscientes destas fases a compreensão das suas reacções fica facilitada propiciando assim que o seu regresso ocorra da melhor forma possível. Sim, porque os casos em que o atleta está completamente recuperado fisicamente, mas não consegue recuperar a forma anterior à lesão abundam e uma das explicações para isso é que a “lesão” mental ainda persiste. O factor mental permite explicar também porque é que alguns atletas recuperam muito rapidamente de lesões e outros demoram mais tempo a recuperar de lesões semelhantes. Ora se é reconhecido por todos que o factor mental é importante na recuperação de lesões porque é que ainda não se recorre sistematicamente a profissionais especializados nessa área, tal como se faz e muito bem em relação aos médicos e fisioterapeutas?
Prof. Dr. Jorge Silvério
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